 cavalo. Uma
sela de minha própria concepção, talvez te interesse saber.
Era isso ou montar um pônei. Meus braços são sufi-
cientemente fortes, mas, uma vez mais, demasiado curtos.
Nunca serei um espadachim. Se tivesse nascido camponês,
provavelmente me teriam expulsado para que morresse, ou
vendido para a coleção de aberrações de algum negociante de
escravos. Mas, ai de mim! Nasci um Lannister de Rochedo
Casterly, e as coleções de aberrações são das mais pobres.
Esperam-se coisas de mim. Meu pai foi Mão do Rei durante
vinte anos. Aconteceu que, mais tarde, meu irmão matou esse
mesmo rei, mas minha vida está cheia dessas pequenas
ironias. Minha irmã casou-se com o novo rei e o meu
repugnante sobrinho será rei depois dele. Devo cumprir
minha parte pela honra da minha Casa, não concorda? Mas
como? Bem, poderei ter as pernas pequenas demais para o
corpo, mas minha cabeça é grande demais, embora eu prefira
pensar que tem o tamanho certo para minha mente. Possuo
um entendimento realista das minhas forças e fraquezas. A
mente é a minha arma. Meu irmão tem a sua espada, o Rei
Robert, o seu martelo de guerra, e eu tenho a mente... e uma
mente necessita de livros da mesma forma que uma espada
necessita de uma pedra de amolar se quisermos que se
mantenha afiada - Tyrion deu uma palmada na capa de couro
do livro. - Ê por isso que leio tanto, Jon Snow.
O rapaz absorveu tudo aquilo em silêncio. Possuía o rosto dos
Stark, mesmo que não tivesse o nome: comprido, solene,
reservado, um rosto que nada revelava. Quem quer que tenha
sido sua mãe, pouco dela havia ficado no rapaz.
- E está lendo sobre o quê?
- Dragões - disse-lhe Tyrion.
- De que serve isso? Já não há dragões - disse o rapaz, com as
fáceis certezas da juventude.
- É o que dizem - respondeu Tyrion. - É triste, não é? Quando
tinha a sua idade, costumava sonhar em ter um dragão meu.
- Ah, sim? - perguntou o rapaz com suspeita na voz. Talvez
pensasse que Tyrion estava zombando dele.
- Ah, sim. Até um rapazinho enfezado, torcido e feio pode
olhar o mundo de cima quando está sentado no dorso de um
dragão - Tyrion afastou a pele de urso e pôs-se de pé. -
Costumava acender fogueiras nas entranhas de Rochedo
Casterly e ficar horas olhando as chamas, fazendo de conta
que eram fogos de dragão. Por vezes imaginava meu pai a
arder. Outras, minha irmã - Jon Snow olhava-o fixamente,
submerso em partes iguais de horror e fascínio, Tyrion soltou
uma gargalhada rude. - Não me olhe assim, bastardo.
Conheço o seu segredo. Você sonhou o mesmo tipo de sonhos.
- Não - Jon Snow rebateu, horrorizado. - Nunca sonharia...
- Não? Nunca? - Tyrion ergueu uma sobrancelha, - Bem, sem
dúvida que os Stark foram ótimos para você. Estou certo de
que a Senhora Stark o trata como se fosse um de seus filhos. E
seu irmão Robb sempre foi amável. Por que não? Ele fica com
Winterfell e você com a Muralha. E seu pai... deve ter bons
motivos para enviá-lo para a Patrulha da Noite...
- Pare com isso - Jon Snow ordenou, o rosto escuro de ira. - A
Patrulha da Noite é uma vocação nobre!
Tyrion deu uma risada.
- Você é demasiado esperto para acreditar nisso. A Patrulha
da Noite é uma pilha de estrume para todos os inadaptados
do reino. Vi-o olhando para Yoren e seus rapazes. São aqueles
os seus novos irmãos, Jon Snow, que tal lhe parecem?
Camponeses mal-humorados, devedores, caçadores furtivos,
violadores, ladrões e bastardos como você acabam todos na
Muralha, à espreita de gramequins e snarks e todos os outros
monstros contra os quais a sua ama de leite lhe preveniu. A
parte boa é que não existem gramequins nem snarks e,
portanto, o trabalho pouco perigo oferece. A parte má é que
por causa do frio torna-se estéril, mas como, seja como for,
não está autorizado a se reproduzir, suponho que isso não
importa.
- Pare com isso! - gritou o rapaz. Deu um passo em frente,
com as mãos dobradas em punho, prestes a arrebentar em
lágrimas.
De súbito, absurdamente, Tyrion sentiu-se culpado. Deu um
passo em frente, tencionando dar ao rapaz uma palmada
tranquilizadora no ombro ou murmurar uma palavra
qualquer de desculpa.
Não chegou a ver o lobo, onde estava nem como se
aproximou. Num momento caminhava para Snow e no
seguinte estava caído de costas no duro chão pedregoso, com
o livro a rodopiar para longe na queda, o fôlego a desaparecer
com o súbito impacto, a boca cheia de terra, sangue e folhas
apodrecidas. Quando tentou se colocar em pé, sentiu um
doloroso espasmo nas costas. Devia tê-las torcido na queda.
Rangeu os dentes com frustração, agarrou-se a uma raiz e
conseguiu puxar-se até uma posição sentada.
- Ajude-me - pediu a Jon, estendendo uma mão.
E de repente o lobo estava entre eles. Não rosnou. A maldita
coisa nunca soltava um som. Limitou-se a olhá-lo com
aqueles brilhantes olhos vermelhos, mostrou-lhe os dentes, e
isso foi mais que suficiente. Tyrion deixou-se cair de novo ao
chão com um gemido.
- Pronto, não me ajude. Fico aqui sentado até que vá embora.
Jon Snow afagou o espesso pelo branco de Fantasma, agora
c